Porque existiram homens e mulheres que nunca deixaram de acreditar,
Que lutaram e tiveram coragem de fazer, de correr riscos e alguns de morrer.
Porque a alma de um país não morre só porque alguns querem, porque o manto cinzento da repressão e do conformismo, não é eterno,
Porque sim, eu digo OBRIGADA! Por vossa causa, eu mulher, agora posso:
Dar um beijo na rua, escolher e exercer uma profissão, votar, pedir o divorcio, abrir as minha correspondência, viajar para fora do país sem ter que pedir autorização, tirar a carta, dizer mal do presidente, do ministro e do juiz.
Não ter medo de perder um irmão, um namorado ou marido ou um amigo, numa guerra longínqua e impossível de vencer.
Ler sem medo, ver sem censura, saber o que se passa fora do país, ter uma opinião e não ter que a calar, e sobretudo, obrigada pela esperança, apesar de tudo, agora é mais fácil acreditar.
Por tudo isso, deixo aqui dois poemas.
Bom feriado!LETRA PARA UM HINO
É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!
É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor.
É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar.
Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre, O Canto e as Armas
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
António Gedeão, Linhas de Força